História

Central Analítica – Um relato pessoal

Prof. Dr. João V. Comasseto

 O primeiro curso de pós-graduação que frequentei na USP em 1973 foi “Determinação estrutural orgânica por métodos espectroscópicos”, ministrado pelo Professor Otto Gottlied. Na introdução do mesmo, o Prof. Gottlieb mencionou a existência de laboratórios em Universidades no exterior, nos quais a amostra era entregue e após certo tempo o usuário tinha todas as análises solicitadas, executadas por profissionais experientes. Nossa realidade era bem outra. Eram poucos os equipamentos de análises de grande porte existentes, e quando existiam pertenciam a determinado docente ou laboratório. O uso desses equipamentos por alunos de outros laboratórios dependia da disponibilidade, de tempo e da boa vontade do  “proprietário”  sendo raras as exceções. No IQ-USP, tínhamos um ressonância de 60 MHz, e um espectrofotômetro  de IV que podiam ser usados por todo o Instituto. Não raro, precisávamos enviar amostras para outras cidades ou mesmo para fora do país para obtermos um resultado tão simples como um espectro de IV.

Tendo enfrentado essa situação durante o mestrado e o doutorado, logo que fui contratado no Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em 1976, comecei, juntamente com os colegas que para lá foram na mesma época, a planejar uma Central Analítica nos moldes descritos pelo Prof. Gottlieb em seu curso de pós-graduação. Quando me retirei da UFSCar em 1980, a Central Analítica já era uma realidade e vários equipamentos de grande porte haviam sido adquiridos com recursos da FINEP.

Quando eu retornei ao IQ-USP/SP, agora como docente, ao final de 1980, sugeri aos dirigentes de então a instalação de uma Central Analítica, nos moldes daquela implantada em São Carlos. Infelizmente, a ideia não foi muito bem recebida à época e continuamos com os mesmos equipamentos de que dispúnhamos em 1973, agora já bem mais antigos.

Mesmo sem o apoio institucional, conversei com alguns colegas, entre eles os Prof. Drs. Hans Viertler,  Liliana Marzorati e Massayoshi Yoshida para tentarmos solucionar o problema. A única alternativa viável era a FAPESP (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), que naquela época, em 1985 dispunha de poucos recursos e apoiava apenas solicitações individuais. Juntamente com os colegas mencionados, solicitei uma audiência com o então Diretor Científico da FAPESP, o Professor Ruy Vieira, da USP de São Carlos. Durante essa audiência, o Prof. Ruy nos comunicou que a FAPESP estava lançando em caráter experimental, um novo programa que se destinava a apoiar pedidos de grupos de docentes para a aquisição de equipamentos de grande porte de caráter multiusuário, em uma tentativa para racionalizar o uso dos recursos. O equipamento solicitado foi um ressonância magnética nuclear FT-80 MHz que seria o primeiro equipamento de RMN com FT (transformada de Fourrier) para uso coletivo do IQ-USP/SP que teve o pedido aprovado.

Nesse meio tempo, o Prof. Dr. Walter Colli foi eleito Diretor do IQ e me chamou para perguntar se eu ainda estava interessado em leva adiante a ideia da Central Analítica. Era claro que sim! Dessa forma, agora com o apoio institucional, o mesmo grupo de professores mencionados propôs a formação de um laboratório de análises de prestação de serviços, que deveria funcionar como uma biblioteca: dirigido e operacionalizado por profissionais especializados e gerido por uma comissão de professores para traçar a política de manutenção e utilização de serviços, que seriam executados me ordem cronológica de entrada no laboratório de analises.

Essa ideia foi plenamente aprovada e apoiada pelo Prof. Colli, que passou a dar grande atenção e apoio ao projeto, disponibilizando espaço, apoiando na reitoria a solicitação de claros para especialistas e “administrando” os conflitos, que não foram poucos nem pequenos, entre usuários, especialistas e comissão. Devemos lembrar que estávamos em 1986, propondo uma total mudança de hábitos quanto ao uso de recursos para pesquisa. Pela primeira vez no Departamento de Química Fundamental, o coletivo estava tentando se sobrepor ao individual. Foi um trabalho difícil, com muita gente se opondo e propondo o retorno ao antigo sistema, de professores "tomando conta" de equipamentos, as vezes literalmente! Recordo que em certa ocasião um colega, pessoa ainda hoje de grande prestígio na comunidade, vaticinou durante uma reunião, que nossa proposta estava fadada ao insucesso e que duraria no máximo dois anos. Errou! Sem o apoio do Professor Colli, dificilmente teríamos superado essa fase difícil de implantação.

Enquanto isso, íamos aprovando projetos no PADCT, CNPq, CAPES e FAPESP para a aquisição de equipamentos e montagem de infraestrutura. O grupo do Professor Gottlieb disponibilizou um espectrômetro de massas e um espectrofotômetro no IV, que haviam sido concedidos pela FINEP. O Projeto BID-USP concedeu auxílio para treinamento dos técnicos no exterior e para a vinda de professores e técnicos para ministrar cursos no IQ. O mesmo programa concedeu recursos para a construção do prédio que atualmente abriga a Central Analítica. Atuei como presidente da comissão de construção desse prédio até o final do mandato do Professor Colli e retornei a essa função quando o mesmo voltou a ser diretor em 1995. Em 1996  finalmente o prédio ficou em condições de abrigar os equipamentos, que então eram muitos. Além disso, em 1989, a Reitoria concedeu 9 claros para técnicos, os quais poderiam ser substituídos sempre que preciso, sem perda do claro. Vários dos atuais técnicos ainda vêm dessa época. Em 1991 passe a presidência da comissão da Central Analítica ao Professor Massayoshi, que mais tarde passou ao professor Hans. Em ambas as ocasiões continuei a colaborar ativamente com a Central, principalmente porque a Nanci, que era secretária do meu grupo, administrava também a Central Analítica.

Nesse ponto vale salientar que a Nanci sempre prestou serviço voluntário para a Central Analítica (20 anos!), mesmo sendo secretária apenas de meu laboratório.  Em 2001, em vista da diminuição de minha participação nos trabalhos da Central, decidimos que era o momento da Nanci assumir oficialmente uma atividade que vinha desempenhando voluntariamente. Nessa época, a mesma passou a ser secretária exclusivamente da Central Analítica. Outra funcionária que trabalha na Central Analítica desde antes de sua constituição é a Luzia, que foi treinada pela Professora Riva Muscovici, pioneira na prestação de serviços à comunidade no IQ-USP, a qual dirigia o laboratório de microanálise, que passou a fazer parte da Central Analítica desde seus primórdios. A Luzia trouxe do laboratório da Professora Riva essa mentalidade, tendo sempre atuado de forma exemplarmente profissional.

É com satisfação que vejo agora a Central Analítica, finalmente (20 anos após ter sido proposta), uma seção do IQ, atuando exatamente da forma como foi planejada.

São Paulo, 18 de novembro de 2005.